*Sérgio Telles
Num restaurante, você prefere uma refeição a la carte ou numa tâble dhôte?
Freud, num determinado momento de sua vida, teria preferido um pedido a la carte, ou seja, aquela modalidade na qual a refeição é solicita prato a prato, cada um deles com seu preço definido no cardápio do restaurante. Numa tâble dhôte, Freud sentia "comicamente" que "estava obtendo muito pouco" e tinha de "ficar de olho em seus próprios interesses".
Numa tâble dhôte - onde a refeição completa, com vários pratos e bebida incluída, é oferecida a preço fixo - quem sai ganhando é o gourmand, já que ele se delicia não tanto com a qualidade e sim com grandes quantidades. Obviamente o mesmo não se dá com aquele que tem um apetite mais modesto, que - por esta razão - pode sentir-se lesado, pagando além do que devia, em proveito de outros.
Possivelmente era esta a sensação que Freud tinha numa tâble dhôte. Esta sua confissão, entretanto, não deve nos levar à conclusão apressada de que ele era uma pessoa mesquinha e avarenta. Freud faz esta revelação nas associações desencadeadas por um sonho seu, que girava em torno de amores desinteressados e das obrigações devidas às pessoas que amamos. Ou seja, algo que nada tinha a ver com a tâble dhôte propriamente dita. Mas é justamente isso o que Freud queria provar: aquilo que lembramos de um sonho, que ele passa a chamar de "conteúdo manifesto", na maioria das vezes nada quer dizer, precisando de todo um trabalho analítico para se atingir o "conteúdo latente", que é o mais importante, na medida em que revela os conflitos inconscientes que o sonho tenta resolver.
Para provar suas hipóteses, Freud não hesita em relatar inúmeros sonhos seus, os quais analisa, mostrando os mecanismos próprios do inconsciente e suas formas de expressão. A disposição corajosa de expor-se pessoalmente em nome da divulgação de um novo conhecimento é uma atitude de generosa doação para a humanidade, longe daquela avara e mesquinha que suspeitamos de início.
O livro onde Freud juntou este conhecimento chama-se A INTERPRETAÇÄO DOS SONHOS. Este livro teve sua impressão terminada em meados de l899, mas Freud quis que saísse com a data de l900, uma data simbólica, indicativa do início de um novo século, o que coadunava muito bem com a teoria revolucionária de seu livro.
O tempo confirmou plenamente aquele pressentimento de Freud. Ele é sem dúvidas um dos homens que forjaram a modernidade no século XX e sua obra marcou e marca profundamente toda a face de nossa cultura. Não seria exagero falar "antes de Freud" e "depois de Freud", de tal modo suas descobertas e teorias mudaram radicalmente a visão que o homem fazia de si mesmo.
Antes de Freud, o psiquismo se limitava à Consciência e era sobre ela que se debruçavam os filósofos e psicólogos, na tentativa de entender as motivações e comportamentos humanos. Freud, centralizando intuições milenares, descobriu-nos e mapeou o Inconsciente, este enorme e desconhecido mundo do qual até então tínhamos só alguns vislumbres, fornecidos por artistas, especialmente os grandes escritores, a quem Freud tanto admirava e considerava analistas avant la lettre, desde que - com sua intuição - tinham compreendido muito dos conflitos centrais que abalam a alma humana. "Édipo Rei" de Sófocles é, naturalmente, o exemplo paradigmático.
Freud diz que a humanidade teve, no correr da História, três grandes golpes que abalaram profundamente seu narcisismo, forçando uma revisão completa na maneira como eram entendidos o universo e a própria humanidade. O primeiro foi dado por Galileu, no momento em que provou que a Terra, e conseqüentemente o homem, não eram o centro do Universo. O segundo, por Darwin, ao mostrar que o homem não veio do barro plasmado pela mão de Deus, que o teria feito à sua imagem e semelhança, mas que simplesmente descendia do macaco, elo final de uma longa cadeia evolutiva. Finalmente, o terceiro golpe foi desferido pelo próprio Freud, quando desbancando a até então toda poderosa Consciência, mostra que o homem age em função do Inconsciente, de suas fantasias e desejos, dos quais não tem o menor conhecimento e, por esse motivo, o menor controle. Desta forma, Freud destruiu de vez qualquer veleidade referente ao livre arbítrio e ao racionalismo cartesiano, que muitos consideravam o apanágio máximo da humanidade.
Mas se Freud revelou os mais recônditos segredos da humanidade, esta se vingou, esmiuçando detalhadamente toda sua existência. De fato, já foi dito que a vida de Freud terá sido a mais exaustiva e profundamente descrita, estudada e analisada na história da humanidade. Tudo começou com a famosa biografia autorizada pelo próprio Freud, escrita pelo discípulo Ernest Jones. Depois dela, auxiliados por alguns poucos relatos autobiográficos de Freud, seus sonhos descritos em A INTERPRETAÇÄO DOS SONHOS, sua assombrosa correspondência e depoimentos de contemporâneos, muitos outros biógrafos, comentadores e analistas investigaram atentamente a vida de Freud. Um dos últimos biógrafos foi Peter Gay, que produziu um livro instigante e riquíssimo em informações, escrito numa linguagem acessível a qualquer pessoa bem informada, o FREUD, UMA VIDA PARA NOSSO TEMPO, editada aqui no Brasil pela Companhia das Letras. Aí, como em outras biografias de Freud, é quase impossível não admirar sua coragem, sua genialidade, sua honestidade, que lhe garantem um lugar inconteste entre os heróis de nossa cultura.
É Peter Gay quem nos diz que Freud tinha na comida um de seus prazeres mais regulares e recorrentes. Gostava de uma boa e sólida mesa burguesa, com pratos da cozinha austríaca. Em sua casa, a refeição principal era o Mittagessen, o almoço servido pontualmente às 13 horas, constituído de três pratos: uma sopa, carne e legumes. A isso se seguia uma sobremesa. Os pratos variavam de acordo com a estação do ano, sendo que na primavera tinham habitualmente um extra, de aspargos. Freud gostava muito de alcachofras italianas e de rosbife com cebola. Mas seu prato predileto era o Rindfleisch, um suculento cozido.
Este simples mas saboroso cardápio não estava sendo servido no dia
em que Freud
, rompendo com suas próprias normas técnicas, convidou um paciente seu, o chamado "Homem dos Ratos", para almoçar junto com ele e a família. O prato do dia era arenque. O problema é que o "Homem dos Ratos" detestava arenques, o que o fez ter inúmeras associações engraçadas e escatológicas, que com muito constrangimento teve de comunicar a Freud em sessões subseqüentes a tal jantar.
Quanto a sobremesa, muito embora Peter Gay nada mencione, julgo não estar errado imaginar que na casa de Freud devia-se comer, entre outras coisas, a famosa e tradicional Sachertorte, a torta Sacher (pronuncia-se Zárrer), ainda hoje uma iguaria típica de Viena, assim chamada em honra de uma conhecida família austríaca de nome Sacher, que em meados do século XIX e início do XX era proprietária de um hotel e de vários restaurantes naquela cidade. Trata-se de uma torta feita com manteiga, ovos, açúcar de confeiteiro, migalhas torradas de pão, chocolate, condimentos, assada em camadas, que são posteriormente ajuntadas com geléia de abricó e cobertas com chocolate, sobre o qual se escreve a palavra Sacher.
Em suas descobertas, Freud constatou a extraordinária importância do princípio do prazer e das zonas erógenas, aquelas regiões do corpo especialmente habilitadas para a sua produção. A boca é a primeira zona erógena despertada, a sede do erotismo e do prazer oral. A boca do bebê no seio da mãe é o primeiro e inesquecível modelo de prazer comum a todos os homens e que um dia tivemos, a muito custo, de abdicar, substituindo-o por satisfações outras derivativas, mais permitidas pela realidade. Uma satisfação substitutiva daquele prazer oral é, seguramente, o amor à gastronomia.
Freud além de gostar de sua boa e sólida mesa bürgerliche, tinha outros prazeres derivados do erotismo oral, como o fumar charutos, hábito que o acompanhou durante toda a vida.
Na psicanálise, como se sabe, a boca joga um papel fundamental. Não mais voltada para o alimento ou para as sensações prazerosas somáticas que nela se dão, na psicanálise a boca se enche de palavras, palavras com as quais se pretende, incessante e infrutiferamente, preencher um vazio para sempre aberto, vazio que se estabeleceu no momento em que ela, boca, perdeu - de forma definitiva - o seio materno.
*Sérgio Telles é psicanalista e escritor, membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, autor de “Fragmentos Clínicos de Psicanálise” (Editora da Universidade Federal de São Carlos / Casa do Psicólogo, 2003), “Visita às casas de Freud e outras viagens” (Casa do Psicólogo, 2006), entre outros.
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